Conto: Luz do Inferno.
Autor(a:): Desconhecido.
Você também pode mandar seu conto para o e-mail: sr.fofo@hotmail.com
Luz do Inferno
Eu tinha quinze anos e estava no ensino médio.
Sempre me interessei pelo sobrenatural. Acho que a adolescência é o momento em
que as pessoas ficam mais curiosas para descobrir tudo que há no mundo. Certo dia na escola, combinei com um de meus
amigos, Gustavo, de que iríamos fazer um trabalho juntos. Dois dias depois ele
foi até a minha casa. Nosso combinado era fazermos as
atividades escolares e quando terminássemos, usar o resto do tempo para nos
divertir.
Passar a noite com um amigo não era muito comum
para mim, mas Gustavo sempre fora um grande amigo, por isso o motivo de tudo
ter acontecido. Quando seu melhor amigo dorme em sua casa, você
fica entusiasmado e pensando em várias coisas para os dois fazerem juntos. Mas
na minha época, as melhores coisas a fazer eram: Contar histórias e jogar jogos
de tabuleiro. Mas naquela noite, eu e meu amigo acabamos fazendo outra coisa... A ideia de Gustavo, em certo momento da noite
enquanto eu lhe contava uma história de terror sobre um lobisomem, monstro que
meu pai Marcos jurava ter enfrentado, meu amigo me interrompeu.
- Essa história está chata, o que acha de fazermos
algo mais aterrorizante?
Fiquei curioso e ao mesmo tempo tenso... Já era de
madrugada e todos em casa estavam dormindo.
- Pode ser, mas o que é? Perguntei interessado.
- Vamos entrar em contato com o outro lado. - Gustavo
sorriu.
E então ele me explicou o que deveríamos fazer.
Gustavo me contou que havia lido essa história em
um livro antigo que encontrou na casa de sua avó. Era uma espécie de ritual
para entrar em contato com “seres de outro mundo”.
- O que agente precisa fazer é bem simples... Porém
precisa ser um de cada vez para funcionar!
- Ok, o que precisamos?
- Precisamos de um espelho, mas ele tem que ser
grande.
Nesse momento, lembrei que no porão tinha um
espelho enorme encostado em uma das paredes. Ele era pesado demais para levar
até o quarto, então disse ao Gustavo para fazer o ritual ali mesmo. Descemos as escadas e a casa estava muito escura.
Provavelmente era umas duas da madrugada.
Entramos no porão e eu acendi a luz. Ela era fraca
quando acesa a noite e dava um tom macabro ao ambiente. Não era uma luz normal,
era meio apagada que chegava a ficar um tom alaranjado. Localizamos o espelho, ele estava todo empoeirado. Tirei
minha camisa e o limpei. Encarei Gustavo e perguntei qual era o próximo passo.
- Vou ser o primeiro, beleza? - Disse Gustavo.
- Ok.
- Vai ser assim: ficarei de ponta cabeça e virado
de frente para o espelho. Quero que você segure minhas pernas para que eu possa
manter o equilíbrio. Então vou me concentrar, fechar os olhos, falar a frase
que abre a “porta do outro mundo” e abrir o meu olho esquerdo. Quando isso
acontecer estarei vendo o “outro lado”. Só que não posso me mexer hein, pode
ser ruim se isso acontecer, então me segure firme!
- Por quanto tempo? - Respondi assustado.
- Irei olhar durante um minuto. Nada a mais e nada
a menos. Daí você me chama. Entendeu tudo?
Aquela explicação me cobriu de medo, senti meus pés
formigarem e minha cabeça doer, mas como já estava ali, não tinha como voltar
atrás.
- Entendi, qual é mesmo a frase que abre a porta?
- LUZ DO INFERNO. - Respondeu Gustavo num tom alto
e forte.
Naquele momento, aquela frase me soou muito
medonha. Nós estávamos quase na escuridão e
a palavra luz, ao invés de me confortar, estava me trazendo mais medo e
angústia. Então nos preparamos, Gustavo
plantou bananeira e eu segurei os pés dele. A cena era ridícula e doentia ao
mesmo tempo.
Vi que Gustavo estava concentrado, parecia que
rezava de olhos fechados. Seu corpo estava bem diante ao espelho. Vi sua cara
ficando vermelha, era o sangue descendo para sua cabeça. Então ele disse: “Luz do Inferno”. E abriu apenas o olho
esquerdo. Foi ai que tive minha surpresa.
Quando olhei para meu amigo, notei que seu olho estava todo branco. E então
rezei para que aquele um minuto passasse rápido.
Até aquele momento eu não havia reparado o espelho.
E foi ai que a desgraça aconteceu. O que refletia no espelho, era a imagem de
Gustavo, em pé, com os olhos vermelhos, rindo. Um sorriso medonho, uma cara tão
horrenda que eu nunca tinha visto em minha vida. Sua pele estava num tom roxo,
um corpo muito magro e seus cabelos esbranquiçados. E quando olhei, o corpo de
Gustavo estava se decompondo.
O lugar onde se encontrava me lembrava muito o
espaço, era um negrume com poucas luzes brilhantes, parecendo estrelas. Mas o horrível, o que realmente me traumatizou foi o que
eu vi dentro do olho esquerdo do meu amigo. Sim, a visão era tão nítida do
ângulo em que eu me encontrava.
Quando olhei o espelho, ele parecia um televisor
passando uma espécie de filme de terror. No pequeno globo ocular de Gustavo eu
vi um monstro. Uma criatura estranha, enorme e que corria em nossa direção. Ele
era preto, e tinha olhos vermelhos. Quando eu olhei, ele tinha levado Gustavo
para o mundo dele. E nesse momento vi meu reflexo. Eu estava com a aparência de
um idoso. Passava a mão no meu cabelo e sentia um tufo saindo em minha mão.
Sai correndo, gritei e acordei meus pais. Eles
viram minha aparência e se assustaram, contei a história e eles se assustaram.
Mas o que realmente me apavorou foi ouvir da boca de meu pai: “Você nunca teve
um amigo chamado Gustavo”.
Precisei ir ao médico, e os doutores avisaram meus
pais que um estranho problema mental tinha me afetado. Enquanto isso eu ainda
insistia com a história de meu amigo, mas todos falavam que aquilo era invenção
de minha mente doente.
Na escola não havia mais nenhum Gustavo, na
vizinhança nenhum sinal dele e de seus familiares. Sua avó que um dia fora uma
bruxa muito poderosa, agora havia virado pó. Por uma brincadeira inocente, uma
família inteira havia sido extinta.
O tempo passou e eu fui forçado a viver isolado das
pessoas que são consideradas normais. Hoje tenho medo de espelhos. Tanto que as
únicas coisas que peço aqui na clínica são: não colocar espelhos em meu quarto
e sempre deixar perto de mim uma caneta e um caderno. Hoje escrevo; escrevo e evito espelhos, apenas.
Tento evitá-los o máximo possível. O único que não dá para evitar é o espelho
enorme que existe no refeitório, e sempre que passo por lá, vejo Gustavo me
espionando, esperando eu chegar perto, para ele poder me puxar, pegar a minha
vida para salvar a dele. Lembro-me de suas palavras até hoje e nunca vou
esquecê-las.
- Segure firme, se não alguma coisa pode acontecer.
E eu não segurei, e foi assim que hoje eu vivo
aqui, isolado nesse inferno esperando que as pessoas acreditem em mim e
tentando fazer elas não passarem na frente de espelhos para não serem puxadas
por Gustavo para dentro dele.
--Roberta H.
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