Conto: Linhas de Sangue.
Autor(a:): Desconhecido.
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Linhas de Sangue
Rodrigues deixou o parceiro em casa e seguiu
com a viatura para sua residência. Já passava da meia noite, e como em todas as
sextas-feiras, após o estressante final de turno, ele e o parceiro de patrulha,
Olavo, passavam no Bar do Carlão para tomar uma gelada, e aí sim, dar por
encerrada à noite.
O caminho para sua casa passava por um trajeto ainda sem
asfalto, e cercado por uma vegetação alta e mal cuidada. O bairro
era novo e muitos daqueles que sonhavam em ter o seu canto próprio, arriscaram
em comprar um terreno naquela parte da cidade, acreditando na promessa do
prefeito, que em breve haveria todo tipo de melhoria na região. Com muito
esforço, Rodrigues conseguiu erguer uma casa simples, porém bem feita, mas
ainda assim, quando olhava ao redor, o que via era feio, na verdade assustador.
A pouca iluminação das vielas estreitas, e o som dos insetos, e pequenos
animais no meio das moitas e arbustos, deixavam o lugar com aspecto
fantasmagórico quando a luz do sol ia embora.
A mulher e a filha de
seis anos, não ousavam sequer olhar pela janela, e por esse motivo, Rodrigues
tinha pressa em chegar em casa. Naquela noite, ele estava milagrosamente calmo.
A semana havia sido tranquila, sem nenhuma ocorrência importante. O policial só
pensava em chegar em casa, tomar um banho quente e descansar. Os faróis altos
da viatura iam iluminando o caminho, e de tempos em tempos, alguns vultos
pareciam surgir do nada, e com a mesma rapidez sumiam do alcance de visão do
policial.
Rodrigues nunca fora um
homem supersticioso, menos ainda medroso. Não acreditava em nada sobrenatural.
Tinha medo era de levar um tiro de algum menor drogado no final da noite, e
deixar a mulher e a filha perdidas no mundo. De repente, a luz dos faróis
falhou. O breu tomou conta da estradinha de terra. Rodrigues deu um tapa no
painel e a luz voltou. O homem deu uma pigarreada, “Porcaria de lata velha”.
Quando voltou os olhos
para o para-brisa sujo do carro, o susto.
- Mas que porra é essa?
– gritou.
Meteu o pé no freio. O
carro derrapou um pouco, mas parou em seguida. À sua frente uma mulher andava
em sua direção de forma desengonçada. Usava um vestido branco que mais parecia
uma camisola comprida. A cabeça pendia para um lado, e no seu pescoço desciam
duas finas linhas vermelhas. Rodrigues desligou o carro e saiu para acudir a
moça. A garota devia ter uns vinte três anos. Os cabelos loiros e lisos
chegavam quase à cintura. A pele incrivelmente branca. As linhas de sangue
deixavam uma marca estranha no vestido, que lembrava o desenho de um labirinto
circular.
- O que aconteceu
senhora? – perguntou Rodrigues. A garota nem mesmo ergueu os olhos. - Qual seu
nome? Como se machucou? – Silêncio novamente.
- Vamos, entre no
carro, eu a levo ao pronto socorro. – e dizendo isso, abriu a porta traseira do
carro e ajudou a mulher a deitar-se no banco.
Ligou o carro, fez a
volta e saiu a toda velocidade. Em todo percurso a garota não fez sequer um
ruído. Como já era madrugada, o posto médico já estava bem vazio. Entrou com o
carro na garagem da ambulância.
- Ei moça, chegamos. A
senhora consegue andar? — Novamente sem resposta.
Desta vez, sequer um
movimento. Rodrigues deu a volta no carro e abriu a porta apressado. Com muita
dificuldade, conseguiu puxar a moça e erguê-la nos braços. Com a claridade da
garagem do pronto socorro, conseguiu ver com clareza o motivo do sangramento no
pescoço dela. Dois orifícios paralelos naquela que devia ser a jugular da
garota, vertiam um sangue escuro e viscoso. O policial achou aquilo um tanto estranho, mas não queria perder mais tempo, pois aparentemente, a moça já
estava quase morta.
Adentrou a sala de recepção com a mulher nos braços
procurando pela plantonista. Reparou que a cabeça da garota já não se firmava
mais no pescoço, assim como seus braços e pernas caídos, a deixavam ainda mais
pesada. Se não estivesse morta, certamente teria desmaiado.
- Ei, alguém me ajude
aqui. Há uma mulher ferida. – gritou ele.
A enfermeira Matilde
veio correndo com o susto pelos gritos de Rodrigues.
- O que aconteceu
policial? – e vendo o estado da mulher nos braços de Rodrigues já foi logo
indicando. – Rápido, coloque-a aqui nesta cama. – disse ela apontando para uma
maca num pequeno cômodo à esquerda.
O policial fez o que a
enfermeira lhe pediu, e começou a explicar como havia a encontrado, mas foi
interrompido.
- Agora não. Chame o
Dr. Alcides. Ele está cochilando no quarto do fundo. Rápido, se é que já não é
tarde demais.
Rodrigues tornou a
olhar para a garota, que dessa vez estava com os olhos abertos e olhando
diretamente pra ele. O policial foi saindo de costas, quando bateu na porta
entreaberta. Quando voltou para olhar para a garota, a mesma já estava
novamente desfalecida, com os olhos cerrados, tal e qual como a trouxera da
viatura. Correu pelo corredor estreito, chamando pelo médico de plantão. Chegou
ao quarto, batendo na porta e já a abrindo em seguida. O médico deu um salto
pelo susto, e Rodrigues se aproximou do homem pedindo ajuda. Foi então que
ouviu o bater da porta do quarto às suas costas.
Rodrigues começou a
contar o que havia acontecido e o médico ainda meio atordoado, levantou-se e
pegou seu jaleco branco que estava colocado na cadeira ao lado. O policial
continuou relatando os fatos e chegou à porta que havia se fechado com
estrondo, porém, não conseguia virar a maçaneta. A porta estava trancada.
- Mas que droga. Como
abre essa joça? – perguntou o policial fazendo força para abri-la.
O médico chegou perto
do policial e tentou virar a maçaneta redonda.
- Mas como é que pode?
Essa porta não tem trinco... – estranhou o médico.
Os dois entreolharam-se
sem entender. Rodrigues chutava a porta e batia na maçaneta com o punho
fechado, e nem sinal da porta abrir. Já perdendo a paciência, pôs a mão no
coldre e puxou a arma.
- Pra trás, doutor. – apontando
a arma para a maçaneta.
Inexplicavelmente a
porta se abriu sozinha, rangendo alto. Os dois se entreolharam sem nada dizer e
saíram pelo corredor.
- Então policial, mas
como é mesmo esse ferimento com dois buracos no pescoço da garota? – indagou -
É algo bem estranho doutor, como se um animal a tivesse mordido exatamente na
veia do pescoço, e o sangue era...
Os dois entraram na
saleta e olharam direto pra maca encostada na parede. Na maca, estava deitada a
enfermeira Matilde com olhos vidrados, olhando para o teto. O braço pendia para
fora da cama. O lençol branco estava manchado de sangue rubro. O mesmo sangue
que descia por duas finas linhas que vertiam dos dois orifícios paralelos na
sua jugular.
--Roberta H.
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