Conto: Sussurros
Autor(a:): Roberta H.
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Sussurros
Estava
eu, sozinha, deitada no sofá de minha casa lendo alguns contos em meu
computador, quando acho que vejo um vulto branco em minha frente. Levanto os
olhos e não vejo nada além da cozinha escura. Ignoro e continuo minha leitura
normalmente, mas sinto que estou sendo observada. Olho para a porta ao meu
lado. Nada de novo.
Começo
a escutar sussurros dentro de minha cabeça. Palavras que não consigo entender.
Ignoro mais uma vez. Esforço-me para manter meus pensamentos no que estou
lendo, mas não adianta. Os sussurros continuam. Mais palavras a cada segundo. Parecem
dezenas de pessoas falando ao mesmo tempo dentro de minha cabeça.
--Calem
a boca, desgraçados! – gritei, mas de nada adiantou. Os sussurros continuaram.
Coloquei uma música no máximo volume, mas eles não
pararam. As palavras só aumentaram mais ainda. Desliguei meu computador. Podia
ouvir pessoas chorando, outras rindo, algumas falando coisas que eu não
entendia. Eu ouvia meu nome.
--Alice...
--Como você sabe
meu nome?
--Nós sabemos de
tudo...
--O que vocês
querem? Parem! Por favor, parem!
--Nós queremos algo
seu, Alice...
--Por que vocês
estão fazendo isso?!
Subitamente os sussurros pararam. Tudo o que eu ouvia era
o silêncio. Tranquei-me em meu quarto. Estava com muito medo. Achei que a
melhor solução seria dormir. Apaguei as luzes e deitei-me em minha cama. Fechei
meus olhos e disse a mim mesma que estava ficando louca, que tudo era apenas
minha imaginação. Não era.
Muitos pensamentos
passaram pela minha cabeça naquela noite. Tentei encontrar uma explicação
cabível para o que acontecera anteriormente, mas não encontrei. Uma pergunta
permaneceu em meu pensamento até que o sono tomou conta de mim: o que aquelas
vozes que sussurravam em minha mente queriam?
Naquela noite tive
um pesadelo. Sonhei que estava me afogando num mar ser fim. Tentava nadar para
cima, mas não adiantava. Meus pulmões já estavam ardendo, quando alguém segurou
minha mão e me levou para cima. Era uma garotinha com olhos escuros e cabelos
negros. Tinha voz doce e calma. Ela sorria como se tudo fosse maravilhoso.
--Alice,
junte-se a nós. Se você der-nos o que queremos, tudo ficará bem. Não tenha
medo, não queremos machuca-la.
--Quem é você? O que você quer de
mim?
--Agora eu devo ir. Está na hora de
acordar, Alice...
O sonho acaba aqui. A garotinha era uma das pessoas que
diziam meu nome. Pensei que isso podia significar algo. Eu estava certa. Ela
queria me salvar. Do que? De mim mesma, dos outros, do mundo, nunca descobri ao
certo.
Acordei pensando no que isso poderia significar. Os
sussurros voltaram. Mais e mais palavras. Desta vez era pior que da anterior,
eram mais vozes, mais palavras. Eu não entendia o porquê disso tudo. O que eles
queriam me dizer?
--Alice... Venha
conosco... Dê-nos o que queremos...
--Que merda
vocês querem?!
--Sua alma, Alice...
Dê-nos sua alma...
--Por que vocês
querem minha alma?
--Nós só queremos
lhe salvar, Alice...
--Me salvar do
quê?
Os sussurros pararam. De novo. Passei a manhã inteira
perguntando-me por que eles queriam minha alma. Do que eles queriam me salvar.
Não encontrei as respostas. Fui almoçar fora e quando voltei para casa, a
garotinha estava lá. Ela estava me esperando. Ela veio me salvar.
--Olá, Alice. É um prazer conhecê-la pessoalmente.
--O que você está fazendo aqui?
--Eu vim te buscar. Te levar conosco. Te salvar.
--Me levar para onde? Me salvar do quê?
--Levar para um lugar melhor. Salvar de muitas coisas.
Venha comigo, Alice.
Eu não sabia o que fazer. Não sei o que se passou pela
minha cabeça, mas resolvi ir com a garotinha. Ela me levou para fora de minha
casa e começamos a caminhar. Saímos da cidade e continuamos andando. Pode
parecer estranho, mas eu não estava cansada. Nós caminhamos muito, durante dois
dias. Até que chegamos onde a garotinha queria me levar. Paramos em frente a um
grande portão, que se abriu sozinho.
--Vamos entrar, Alice.
Venha.
Entramos e o que havia lá dentro eram milhares de
pessoas. Todas com roupas pretas. Crianças e adultos. Todas falando ao mesmo
tempo, como nos sussurros que eu escutava.
--Quem são essas pessoas?
--Não são pessoas, Alice. São almas perdidas que perderam-se
no caminho do céu.
--O que eu estou fazendo aqui, então? Não sou uma alma
perdida.
--Alice, você está morta. Nós sabíamos que você não iria
para o céu. Então, lhe poupamos do inferno.
--O que?! Como? Eu não me lembro de ter morrido!
--Quando você aceitou vir comigo, seu corpo permaneceu
lá. Apenas sua alma veio.
Agora eu pertenço a eles. Você deve estar se perguntando:
como você escreveu isso se está morta? Estou sussurrando para alguém. Esse
alguém faz o que eu quero, porque ele não quer ir para o inferno. Ele também se
juntará a nós quando morrer. Aqui onde estou é um bom lugar, ou pelo menos
melhor que o inferno. Caso você escute sussurros, não tenha medo.
--Nós só queremos
te salvar...
--Roberta H.



Legal e estranho..... tenso
ResponderExcluir:)
ExcluirAinda vou te levar pra outro lugar , além do sol, do mar. onde eu possa te ter , te amar e o tempo vai ser maior . Inevitavel nao lembrar dessa música. Adoro seus contos. Na hora de dormir é que é o problema ..
ResponderExcluirObrigada, fico feliz que goste. :)
ExcluirTop. Gostei .
ResponderExcluirMuito interessante colocar se no conto.. parabens