Música

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Conto - Sussurros

Conto:  Sussurros
Autor(a:): Roberta H.
  Você também pode mandar seu conto para o e-mail: sr.fofo@hotmail.com


Sussurros

Estava eu, sozinha, deitada no sofá de minha casa lendo alguns contos em meu computador, quando acho que vejo um vulto branco em minha frente. Levanto os olhos e não vejo nada além da cozinha escura. Ignoro e continuo minha leitura normalmente, mas sinto que estou sendo observada. Olho para a porta ao meu lado. Nada de novo.

Começo a escutar sussurros dentro de minha cabeça. Palavras que não consigo entender. Ignoro mais uma vez. Esforço-me para manter meus pensamentos no que estou lendo, mas não adianta. Os sussurros continuam. Mais palavras a cada segundo. Parecem dezenas de pessoas falando ao mesmo tempo dentro de minha cabeça.

--Calem a boca, desgraçados! – gritei, mas de nada adiantou. Os sussurros continuaram.

            Coloquei uma música no máximo volume, mas eles não pararam. As palavras só aumentaram mais ainda. Desliguei meu computador. Podia ouvir pessoas chorando, outras rindo, algumas falando coisas que eu não entendia. Eu ouvia meu nome.

            --Alice...

            --Como você sabe meu nome?

            --Nós sabemos de tudo...

            --O que vocês querem? Parem! Por favor, parem!

            --Nós queremos algo seu, Alice...

            --Por que vocês estão fazendo isso?!


            Subitamente os sussurros pararam. Tudo o que eu ouvia era o silêncio. Tranquei-me em meu quarto. Estava com muito medo. Achei que a melhor solução seria dormir. Apaguei as luzes e deitei-me em minha cama. Fechei meus olhos e disse a mim mesma que estava ficando louca, que tudo era apenas minha imaginação. Não era.




            Muitos pensamentos passaram pela minha cabeça naquela noite. Tentei encontrar uma explicação cabível para o que acontecera anteriormente, mas não encontrei. Uma pergunta permaneceu em meu pensamento até que o sono tomou conta de mim: o que aquelas vozes que sussurravam em minha mente queriam?

            Naquela noite tive um pesadelo. Sonhei que estava me afogando num mar ser fim. Tentava nadar para cima, mas não adiantava. Meus pulmões já estavam ardendo, quando alguém segurou minha mão e me levou para cima. Era uma garotinha com olhos escuros e cabelos negros. Tinha voz doce e calma. Ela sorria como se tudo fosse maravilhoso. 




           --Alice, junte-se a nós. Se você der-nos o que queremos, tudo ficará bem. Não tenha medo, não queremos machuca-la.

            --Quem é você? O que você quer de mim?

            --Agora eu devo ir. Está na hora de acordar, Alice...

            O sonho acaba aqui. A garotinha era uma das pessoas que diziam meu nome. Pensei que isso podia significar algo. Eu estava certa. Ela queria me salvar. Do que? De mim mesma, dos outros, do mundo, nunca descobri ao certo.

            Acordei pensando no que isso poderia significar. Os sussurros voltaram. Mais e mais palavras. Desta vez era pior que da anterior, eram mais vozes, mais palavras. Eu não entendia o porquê disso tudo. O que eles queriam me dizer?

            --Alice... Venha conosco... Dê-nos o que queremos...

            --Que merda vocês querem?!

            --Sua alma, Alice... Dê-nos sua alma...

            --Por que vocês querem minha alma?

            --Nós só queremos lhe salvar, Alice...

            --Me salvar do quê?

            Os sussurros pararam. De novo. Passei a manhã inteira perguntando-me por que eles queriam minha alma. Do que eles queriam me salvar. Não encontrei as respostas. Fui almoçar fora e quando voltei para casa, a garotinha estava lá. Ela estava me esperando. Ela veio me salvar.

            --Olá, Alice. É um prazer conhecê-la pessoalmente.

            --O que você está fazendo aqui?

            --Eu vim te buscar. Te levar conosco. Te salvar.

            --Me levar para onde? Me salvar do quê?

            --Levar para um lugar melhor. Salvar de muitas coisas. Venha comigo, Alice.

            Eu não sabia o que fazer. Não sei o que se passou pela minha cabeça, mas resolvi ir com a garotinha. Ela me levou para fora de minha casa e começamos a caminhar. Saímos da cidade e continuamos andando. Pode parecer estranho, mas eu não estava cansada. Nós caminhamos muito, durante dois dias. Até que chegamos onde a garotinha queria me levar. Paramos em frente a um grande portão, que se abriu sozinho.




            --Vamos entrar, Alice. Venha.

            Entramos e o que havia lá dentro eram milhares de pessoas. Todas com roupas pretas. Crianças e adultos. Todas falando ao mesmo tempo, como nos sussurros que eu escutava.

            --Quem são essas pessoas?

            --Não são pessoas, Alice. São almas perdidas que perderam-se no caminho do céu.

            --O que eu estou fazendo aqui, então? Não sou uma alma perdida.

            --Alice, você está morta. Nós sabíamos que você não iria para o céu. Então, lhe poupamos do inferno.

            --O que?! Como? Eu não me lembro de ter morrido!

            --Quando você aceitou vir comigo, seu corpo permaneceu lá. Apenas sua alma veio.

            Agora eu pertenço a eles. Você deve estar se perguntando: como você escreveu isso se está morta? Estou sussurrando para alguém. Esse alguém faz o que eu quero, porque ele não quer ir para o inferno. Ele também se juntará a nós quando morrer. Aqui onde estou é um bom lugar, ou pelo menos melhor que o inferno. Caso você escute sussurros, não tenha medo.

            --Nós só queremos te salvar...


--Roberta H.

5 comentários:

  1. Legal e estranho..... tenso

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  2. Ainda vou te levar pra outro lugar , além do sol, do mar. onde eu possa te ter , te amar e o tempo vai ser maior . Inevitavel nao lembrar dessa música. Adoro seus contos. Na hora de dormir é que é o problema ..

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  3. Top. Gostei .
    Muito interessante colocar se no conto.. parabens

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