Conto: O Prisioneiro e sua Carta.
Autor(a:): Desconhecido.
Você também pode mandar seu conto para o e-mail: sr.fofo@hotmail.com
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O Prisioneiro e sua Carta
Tenho mofado em minha cela nessa penitenciaria
imunda por vinte e dois anos. Hoje escrevo essa carta porque sinto que a vida
em meu corpo esta desaparecendo e sinto necessidade não somente de confessar
meus pecados, mas também de alertar a quem essa carta possa chegar sobre os
perigos sobrenaturais que são terrivelmente ignorados por todos. Especialmente
agora, nesse mundo de tecnologia tão avançada, as
pessoas não têm mais tempo para enxergar o que está ao seu redor, ou até mesmo
olhar as estrelas. Todos estão muito ocupados com as coisas que pouco lhes
deveria importar.
Mas vamos aos fatos abomináveis de minha vida antes
que eu perca sua atenção. O ano era o de 1982, eu era jovem, tinha somente 24
anos, trabalhador, honesto e suficientemente simpático para que não me faltassem
moças para cortejar. Era morador de uma cidadezinha miserável no sul do país, a
qual o nome não revelarei.
Estava frio quando eu acordei de madrugada, estava
sentindo uma sensação estranha, como se alguém estivesse me observando. Liguei
a luz do abajur que ficava em cima do criado mudo ao lado de minha cama e olhei
em volta. Tudo parecia normal, mas aquele sentimento estranho persistia. Tentei
lembrar se estava tendo um pesadelo, mas tinha certeza que não. Apaguei a luz e
voltei a dormir.
Nas noites que se seguiram o mesmo acontecia, eu
acordava e a sensação de que havia alguém comigo ficava cada vez mais forte. Eu
comentei com minha pobre mãe sobre o que estava acontecendo.
“Isso é sua
imaginação.” Dizia ela.
Depois de algumas semanas eu já estava acostumado
com aquilo e nem me incomodava mais, eu acordava no meio da noite e voltava a
dormir sem me preocupar. Esse foi meu erro, ignorar o que não poderia ser
ignorado.
Meus amigos e familiares começaram a reclamar do
meu comportamento, diziam que eu andava nervoso, violento e sempre pronto para
atirar palavras ásperas a eles. Eu sempre dava a desculpa de não estar dormindo
bem, dizia que aquilo estava me matando e me tirando do sério, aliás, todos sabem
como dormir mal pode afetar nosso comportamento.
Mas aquele sentimento bizarro começou a piorar.
Então houve a primeira ocasião onde eu tive a certeza de que aquilo não era só
impressão minha e que realmente alguém, ou algo, estava comigo durante as noites.
Abri meus olhos, mas não podia me mover, tentei de todas as formas levantar ou
gritar, mas meu corpo não obedecia aos meus comandos. Foi então que olhei com
terror para um canto do quarto e vi o que parecia ser uma pessoa, não desse
mundo tinha certeza, pois era somente uma sombra esfumaçada que ali se apresentava.
A “coisa” como tenho chamado essa entidade desde então, começou a mover-se em
minha direção. Aterrorizado tentei gritar, mas meu grito era abafado de maneira
sobrenatural, como se milhares de mãos estivessem apertando meu pescoço.
Fechei meus olhos e repetia a mim mesmo “você esta
tendo um pesadelo” até que senti que outra vez era o mestre do meu corpo e este
me obedecia com eficácia apesar de sentir um pouco de dormência. Abri os olhos
outra vez e meu quarto estava vazio. Dormi com a luz acesa o resto da noite. Na
manhã seguinte fui ao encontro de minha família que estavam na mesa tomando o
café da manhã. Contei tudo o que aconteceu. Meus dois irmãos mais novos riram,
meu pai nem escutou e minha mãe continuou dizendo que eu estava tendo pesadelos
que pareciam reais. Saí para ir ao trabalho furioso.
Aquilo virou uma rotina, todas as noites aquela
criatura aparecia me imobilizava chegava perto de mim e desaparecia. Minha
confissão vai te parecer muito bizarra e até mesmo anticristã, e hoje sei que
essas são exatamente as palavras para descrever meus atos naquela época. Eu
criei uma espécie de vinculo com essa coisa, não nos falávamos, mas eu acabei
tomando gosto pela sensação desconfortante que aquilo me causava. O estado
emocional em que me deixava após a paralisia não posso descrever, não era bom,
mas de alguma forma eu gostava e talvez essa minha fraqueza foi o que levou ao
meu ato de perversidade final.
Eu me lembro bem, dia vinte e dois de março, eu me
sentia cansado e depressivo. Os ataques sombrios estavam sugando minhas
energias e de alguma forma eu perdia o controle do meu corpo. Nessa noite eu
acordei exatamente às quatro e meia da manhã e ali estava o espectro outra vez.
Notei que algo estava diferente, eu podia sentir seu cheiro e sua forma estava
mais solida do que nunca. Mesmo não podendo imaginar com o que aquilo se
parecia me horrorizei com aquela imagem demoníaca que se aproximava de mim.
Outra vez tentei em vão me libertar das correntes invisíveis que me prendiam os
movimentos, eu queria correr, sabia que algo de ruim estava para acontecer.
Foi então que o monstro deitou-se em cima de mim e
começou a sussurrar algo em meus ouvidos. Ainda hoje não sei o que ele dizia,
mas soava maligno e hipnotizante. Minha visão foi desaparecendo, sentia que meu
espírito estava sendo sugado, até que eu perdi a consciência.
Escutei um grito masculino alto e forte, quando
abri os olhos vi a bota de um policial se aproximar do meu rosto com violência.
Fui jogado no chão e coberto por outros policiais que me seguravam enquanto
outro me algemava. Olhei em volta, notei que estava na cozinha, os corpos dos
meus pais e irmãos estavam no chão com os membros despegados do corpo e
dilacerados. O sangue no meu corpo denunciava que eu era o autor daquele crime
bárbaro, o sangue dos meus familiares em minha boca me acusava de um dos maiores
crimes que alguém pode cometer contra outro ser humano, o canibalismo.
Desde então, fui atirado nessa cela nojenta e cheia
de bichos. Convivendo com o mais baixo tipo de ser humano existente no mundo.
Não me matei ainda por covardia, porém creio que não será mais necessário, pois
tenho uma doença que avança a cada dia e meu fim está próximo.
Esse foi meu alerta para as pessoas que lerem essa
carta. Estejam sempre vigilantes e não se deixem levar pela falta de cuidado.
Hoje conheço outras histórias similares a minha e sei que essas entidades,
demônio, diabo ou espírito maligno, seja qual for sua denominação correta, nos
utiliza como veículos para matar sua sede insaciável de sangue.
-- Roberta H.
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